É já esta sexta-feira que Nuno da Camara Pereira sobe ao palco do Coliseu de Lisboa para apresentar o seu recente álbum “Belmonte, Em Cantos mil”, um trabalho dedicado à epopeia trágico-marítima das descobertas e achamento do Brasil com o qual comemora também os seus quarenta anos de carreira após haver pisado o palco daquela mesma icónica casa em 1977.

Neste espectáculo não poderão faltar também todos os êxitos que marcam a carreira deste prestigiado artista, que estará em palco acompanhado por Custódio Castelo e Fernando Silva (Guitarra), Carlos Garcia (Viola), João Triska (Viola Caipira), Fernando Calado (Baixo), Tiago Pereira (Percussão) e José Liaça (Teclas). Júlio Isidro terá a missão de apresentar o espectáculo para o qual foram convidados alguns nomes que Nuno da Câmara Pereira fez questão que estivessem presentes.

Passarão assim pelo Coliseu dos Recreios na próxima sexta-feira Maria João Quadros, tida como a voz mais castiça de Lisboa, senhora cuja presença aristocrática conseguiu fazer conciliar com o fado na geminação perfeita de sua própria vida, em cima da poesia e musicalidade próprias que esta modulação popular apenas permite aos que foram agraciados naturalmente com o prodigioso talento imporem toda a força da palavra e música dos melhores poetas portugueses.

Outro dos convidados será Artur Batalha, nato de Alfama igualmente icónico, alicerçado no fado mais genuíno, representativo e genuinamente popular, ele que representa o que de melhor e perfeito se encontra na emoção e textura dramatológica, guardada apenas àqueles que de uma forma ou de outra, souberam viver nas circunstancias da vida, a voz dos poetas por eles mesmos se eternizando.

Mico da Camara Pereira, irmão e afilhado de Nuno, será igualmente convidado neste espectáculo, ele com que se iniciou na música com o seu irmão a quem acompanhou na sua primeira década de artista. Cantautor e músico eclético, Mico tem vindo desde há 30 anos a impor-se no panorama musical como fica claro na sua diversa discografia, havendo-se recentemente apresentado autonomamente com largo êxito no Casino Estoril.

Por fim, passará igualmente pelo palco do Coliseu de Lisboa a Orquestra da Escola de Música de Belmonte, orquestra sinfónica que participou no tema principal que dá nome ao álbum e que através da sua erudição, alegria e juventude, deverá emprestar ao Coliseu a principal razão porque Nuno soube atravessar o tempo, conseguindo por quatro décadas e 16 álbuns publicados, uma enorme diversidade musical, contemporânea e subversivamente antológica, na evolução contínua e cuidada sem ambiguidades ou extemporâneas razões, alicerce constante do Fado, metrópole de toda a pop-musica portuguesa.

Estarão assim no palco do Coliseu a verdade, a tradição e o amanhã dos nossos dias, sem duúvida na direção do reencontro gestual que somente a arte e a música apenas permitem.

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“Belmonte, Em Cantos mil” — o álbum

Com este álbum “Belmonte, Em Cantos mil”, Nuno da Câmara Pereira relança o tema do “achamento do Brasil” por temas dedicados à viagem, no tempo e no espaço, de uma língua e de um povo que apenas a diáspora entende e justifica através da poesia e música de poetas e intérpretes de aquém e além-mar.

Cantando Caetano, Saulo Fernandes ou Doryval Cayme, Nuno, com Luiz Caldas, lança novamente o desafio através de sete originais a par e passo dos temas popularizados por aqueles, como “Os Argonautas”, ”Raiz de todo o bem”, ”Saudade da Bahia”, ”É doce morrer no mar”, com os quais repõe sentimentos e impressões que a música e seu talento fazem sentir indiferenciadamente na música brasileira e portuguesa, que sem se misturarem a tornam original e própria sem sequer se fundirem.

É o Fado em toda a dimensão da palavra que tão exemplarmente se pretende fazer transmitir neste disco que ora relança a consanguinidade e dimensão transatlântica da língua portuguesa. Consegue geminar a urbana guitarra portuguesa com a rural viola caipira, ao mesmo tempo que junta a afro-brasileira percussão com o hispânico “carron”, mas também a viola clássica em sua peculiar forma lusa de tocar à volta do fado, com o baixo elétrico e o brasileiro cavaquinho.

São duas formas aparentemente difusas de abordar o mesmo tema, apenas geminadas pela voz de Nuno da Câmara Pereira que, de forma uníssona e única, as torna cúmplices e surpreendentemente sós e nostálgicas, perante um movimento modernista e fascinante pleno de poesia e utopia.

Belmonte, de onde partiu Cabral, ele que uniu pela primeira vez os dois continentes, é agora testemunha ímpar da consanguinidade luso-brasileira no domínio cultural que apenas a música é cúmplice e testemunha. Assim é que se divide por temas diversos e unidos pelo passado e pelo amanhã, cada vez mais presente e fundamentalmente justificativos num movimento interpretativo não apenas contemplativo, desde os originais de Luiz Caldas e Nuno da Camara Pereira — Belmonte “Em Cantos Mil” | Perdão | Nau Catrineta | Mãe | Se te chamasses saudade | Amor maior | Amor —, aos clássicos portugueses — Coimbra | Rio azul | Fado xu-xu — passando ainda pelos clássicos baianos — É doce morrer no mar | Saudade da Bahia | Argonautas | Raiz de todo o bem.

NunoCamaraPereira Coliseu

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