Manterá a Troika portas abertas a Portugal?

Manterá a Troika portas abertas a Portugal?

Com os políticos do burgo a brincar às crises, os portugueses temem os resultados da verdadeira crise cada vez mais inevitável

Troika001Quando, segunda-feira, se soube que Vítor Gaspar tinha apresentado a demissão, estava eu numa conferência organizada pelo Clube Escape Livre, na Guarda, sobre o futuro dos media . Entre os conferencistas, Francisco Pinto Balsemão, um dos oradores, recebia a informação da "queda" de Gaspar através de um smartphone perante uma plateia que não evitou alguns aplausos quando tomou conhecimento daquela notícia. A partir daí, os acontecimentos sucederam-se a uma velocidade vertiginosa, primeiro com as notícias a darem conta da provável nomeação de Paulo Macedo para a pasta das Finanças, depois com a confirmação de que a escolha iria recair sobre Maria Luís Albuquerque, e depois ainda com a indicação dos secretários de Estado que iriam acompanhar a nova ministra.

Para quem achou que as novidades iriam terminar por ali, esta terça-feira mostrou que ainda a procissão vai no adro. Horas antes da tomada de posse de Maria Luís Albuquerque, bem como dos seus novos secretários de Estado, ocorrida em Belém em cerimónia presidida, naturalmente, por Cavaco Silva, já o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros tinha apresentado o pedido de demissão, ferindo a coligação de morte e abrindo a porta para uma crise de que não se adivinha ainda o fim mas que é de apostar que não trará benefícios para o país. Passos Coelho, em comunicação aos portugueses, adianta que não está disponível para aceitar a demissão de Portas que afirmara antes ser a sua decisão irrevogável.

Confesso que fiquei surpreendido com a reacção de Passos Coelho, porventura ainda mais surpreendido do que ele próprio afirmou ter ficado com a decisão de Paulo Portas. Apostado em obrigar Paulo Portas a assumir-se como o grande culpado da queda do Governo, o primeiro-ministro ignora o óbvio e declara que irá para Berlim amanhã, quarta-feira, para defender o país junto das instituições europeias. O país, esse, fica adiado, umas horas ou uns dias, na expectativa do que resultará destes jogos políticos de meninos mimados para quem as jogadas políticas acabam sempre por ser invariavelmente mais importantes do que todos os valores que teimam em defender, em nome dos interesses nacionais e dos portugueses.

Passos Coelho não terá tido a melhor opção ao escolher a adjunta para chegar a titular, dando a ideia, como no futebol, que não tinha outras opções no banco de suplentes. No desporto-rei, quando uma equipa está a jogar bem, compreende-se que o técnico refresque o seu "onze" sem mudar o esquema táctico. O problema é que esta equipa liderada por Passos Coelho desde há muito que estava (e está) demasiado desgastada e impunha-se nova forma de enfrentar o adversário ainda que com o mesmo objectivo: vencer contra a crise económica e cumprir as metas financeiras. O primeiro-ministro, no entanto, preferiu apostar na solução imediata, porventura para agradar à troika e às instituições europeias que terão visto nesta mudança a determinação do governo em manter os seus compromissos internacionais, e se com isso deu um sinal de cumpridor para a Europa, deu ao mesmo tempo o argumento que Paulo Portas procurava para deitar por terra a coligação e o governo.

O líder do CDS-PP bateu com a porta a Passos Coelho e poderá vir a chamar a si a simpatia daqueles que irão achar que este governo caiu devido à decisão de Portas. Com isso, aquele que no passado foi apelidado de "Paulinho das feiras" quererá garantir um bom resultado num próximo acto eleitoral que lhe permita assumir-se, uma vez mais, como força política a ter em conta em nova coligação governamental, agora entre CDS-PP e PS de António José Seguro, dupla que recentemente Balsemão reuniu em reunião do grupo Bilderberg.

De Passos Coelho exigir-se-ia agora que pusesse tudo em pratos limpos e revelasse, de facto, as jogadas de bastidores que estiveram na base deste golpe palaciano. Contudo, o político de Massamá não o conseguirá fazer, conhecida que é a sua incapacidade de explicar as políticas que adopta. Afinal, esse mesmo foi o grande erro deste governo que nunca soube explicar as verdadeiras razões da sua política, do mesmo modo que agora não irá conseguir (ou não irá querer) explicar as verdadeiras razões da demissão de Paulo Portas. A crise vai prosseguir, o país cairá ainda mais fundo num colapso anunciado, os portugueses irão para a Costa da Caparica a banhos (porque já nem dinheiro há para ir para o Algarve), sem paciência para aturar os políticos que temos, deixando o país entregue a quem o continua a afundar, e o mar vai continuar a bater na rocha, lixando o grande mexilhão que somos todos nós, portugueses, sem forças para aguentarmos tamanha força da ondulação.

No passado, na interrupção das programações, pedia-se desculpa porque tudo continuava "dentro de momentos". Agora, há que temer sobre o que irá efectivamente continuar, mas temo que não seja nada de bom. E o pior é que ninguém pedirá desculpa porque há muito que neste país a culpa morre sempre solteira, e os culpados de ontem são os governantes de hoje, sendo que os culpados de hoje voltarão ao poder amanhã.

JorgeReis

Jorge Reis

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