Uma questão de respeito...
Hoje é Segunda-Feira, 27 de Março de 2017

Uma questão de respeito...

Por ser mulher de quem é, Laura Ferreira não tem que esconder a doença de que padece nem é obrigada a sofrer entre quatro paredes...

LauraFerreira-VIPQuando, na terça-feira, partilhei no facebook uma notícia da revista VIP com Laura Ferreira ao lado do seu marido, Pedro Passos Coelho, limitei-me manifestar o meu respeito por dois seres humanos , uma mulher e o seu marido, e pela forma como ambos enfrentam e têm enfrentado a tão cruel doença que é o cancro, independentemente da sua condição social e dos lugares que ocupam. Afinal, estava em causa uma mera questão de respeito.

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Surpreendeu-me o número de reacções que aquele meu post provocou e surpreenderam-me mais ainda alguns comentários que ali surgiram, e que me fizeram questionar se muitas vezes as pessoas têm espelhos em casa. Verem na forma como uma mulher enfrenta a realidade de uma doença como o cancro uma jogada política para favorecer o marido, só pode ser aceite da parte de quem nunca conviveu com o cancro, de quem nunca teve que acompanhar alguém na recuperação de tamanho mal ou, pior do que isso, no caminho para a morte de algum ente querido levado por tamanho mal.

Como católico que sou por via da educação que recebi dada por alguém que infelizmente partiu levada por a mesma doença de Laura Ferreira, ainda que seja hoje um católico porventura menos praticante por via da vida em ritmo acelerado que pouco ou nenhum tempo deixa para reflexões e paragens espirituais, aprendi a importância de respeitar o próximo, um valor hoje cada vez mais esquecido quando não mesmo torpedeado por aqueles que vêem no próximo sempre um alvo a abater para terem mais espaço para os seus egos. Posso criticar o político, posso apontar a dedo os erros do governante, mas respeito o homem na sua dor, homem que tem o direito a viver os seus problemas pessoais da forma como melhor os souber enfrentar.

Nas redes sociais, hoje cada vez mais o tribunal em que todos, depois de termos sido Charlies, apostamos agora em sermos verdadeiros Carlos Alexandres sem toga, rapidamente apareceram críticas ferozes à mulher e ao seu marido, algumas vindas de personalidades públicas que rapidamente apontaram a guerras políticas, esquecendo que até pela posição que ocupam deveriam ter alguma responsabilidade social e ética. Felizmente, quanto a mim, que apareceram também testemunhos coerentes como os dois que aqui transcrevo retirados dessas mesmas redes sociais, com a devida vénia às suas autoras, bem assim como o editorial do Jornal i assinado pela Jornalista (se me permitem com J maiúsculo) Ana Sá Lopes, que convido a ler aqui. Mais palavras não serão necessárias sobre este tema...

As redes sociais fazem vir ao de cima criaturas que vivem debaixo das pedras e que se manifestam com a sensibilidade de um pedregulho, naturalmente. Fazem parte dessa turba asquerosa de que fala Ana Sá Lopes. Dessa horda anónima destacam-se, habitualmente, uns calhaus a que, as piores razões da História recente do País, deram visibilidade pública. O discurso é igualmente acéfalo e ressabiado mas é alvo de uma atenção maior porque vem de um "especialista". Ora, o caso em apreço dizia respeito a uma imagem publicada na imprensa da mulher do primeiro-ministro sentada ao lado do marido. Seria tudo normal não fosse o caso de Laura Ferreira ter a cabeça rapada. E se fosse por opção própria ,também não havia nada a dizer a não ser, claro ,as habituais páginas das revistas cor-de rosa sobre o novo estilo. Mas não , cabeça rapada por causa de um cancro ? Passos Coelho devia escondê-la em casa ou então, vá lá , pôr-lhe uma burka , assim ninguém daria por uma mulher com cancro ao lado do primeiro-ministro, ainda por cima a sua mulher, que descaramento estratégico !Sim , porque um primeiro-ministro pode ser acompanhado pela sua mulher desde que não tenha cancro , nesse caso não.E muito menos podem os jornalistas dar a conhecer imagens dessas. A professora de Comunicação Social, Estrela Serrano ,e outras criaturas do mesmo agrupamento a que pertence ,ao defenderem posições destas, estão ao nível das pedras com a correspondente sensibilidade de calhau e não se lhes pode pedir mais. O grave é quando esta gente é responsável pela formação de novos jornalistas!
Manuela Moura Guedes

Dizer que o facto de Laura sair à rua e se deixar ser vista sem cabelo é um instrumento político não diz rigorosamente nada sobre Laura ou sobre o marido de Laura. 
Mas diz muito sobre as pessoas que fazem esta insinuação.
Diz que só o fazem porque certamente não privaram com o cancro (felizmente!) nem o sentiram na pele. 
Diz que nunca viveram a angústia de travar esta luta ou de acompanhar quem a trava. 
Diz que não têm respeito pela condição humana nem pela sua efemeridade. 
Diz que são perfidamente maldosos ou simplesmente estúpidos.
Laura saiu à rua. Não basta ter de sobreviver às circunstâncias, teria ainda de viver em clausura sob pena de ser instrumentalizada?
Laura apareceu sem cabelo. Não é um ato de coragem, nem uma manobra de estratégia política. É um registo de normalidade que acredito que lhe terá sabido a muito, ainda que possa parecer muito pouco. É uma manifestação da simplicidade e da solidez desta mulher e a prova de que ela continua a ser como sempre foi. 
Nunca deixou que as circunstâncias a mudassem. Nem a circunstância de ser mulher do primeiro-ministro. Nem a circunstância de estar a lutar contra o cancro.
Não vejo o valor-notícia deste acontecimento. Admito que as minhas noções teóricas do que é Jornalismo estejam ultrapassadas. Tenho pena se assim for, porque não mudaram para melhor.
A notícia que quero ler é outra. Laura venceu o cancro e esta provação foi superada.
Sofia Aureliano

Porque subscrevo por inteiro as palavras transcritas atrás, abstenho-me a fazer mais comentários, limitando-me a deixar uma palavra de apreço a todos aqueles que sofrem por causa do cancro, doentes ou familiares, sejam figuras públicas ou meros anónimos que sofrem em silêncio passando ao lado de uma sociedade que tende a ignorar exactamente aqueles que sofrem, uma sociedade cada vez mais egoísta, uma sociedade que os indivíduos, numa fila de um qualquer multibanco nos confins do mundo de um país dito civilizado de um continente dito civilizado, numa democracia dita civilizada, preferem não perder o lugar em que estão do que ajudar quem sofre e acaba por morrer por falta de auxílio. Sim, porque é essa a sociedade em que vivemos e somos nós todos que estamos naquela fila...

JorgeReis

Jorge Reis

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