Morreu Francisco Nicholson (1938-2016)

Morreu Francisco Nicholson (1938-2016)

Actor, argumentista, escritor e encenador, Nicholson parte aos 77 anos numa altura em que se encontrava internado no Hospital Curry Cabral

FranciscoNicholsonFaleceu na manhã desta terça-feira o actor, argumentista, escritor e encenador, Francisco Nicholson, nome da cultura portuguesa conhecido do grande público pelos muitos trabalhos que realizou no teatro, na revista e na televisão, mas também pelo muito que escreveu, uma actividade porventura menos conhecida pelo grande público, isto apesar de alguns amigos seus apontarem como a sua grande qualidade a forma como escrevia. Aos 77 anos, Nicholson, que se encontrava internado no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, parte poucos dias depois de Nicolau Breyner, outro nome incontornável da cultura da mesma geração tendo ambos participados juntos em diversos projectos teatrais e de televisão, nomeadamente telenovelas.

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A propósito de telenovelas, Francisco Nicholson as novelas Vila Faia, em que Nicolau Breyner tinha um papel principal, mas também Cinzas, Origens, Os Lobos e Ajuste de Contas. A sua origem, no entanto, no mundo das artes aconteceu em redor do teatro, tendo sido actor - começou a fazer teatro aos 14 anos no Liceu Camões, em Lisboa -, mas também autor e promotor da revista à portuguesa.

Depois de ter estudado em Paris, onde frequentou a Academia Charles Dullin, do Théatre Nacional Populaire, Francisco Nicholson teria a sua estreia profissional no teatro infantil com a peça “Misterioso Até Mais Não”, no Teatro do Gerifalto. Integrou também os elencos da Companhia Nacional de Teatro e do Teatro Estúdio de Lisboa, acabando por ingressar no mundo do teatro de revista pela mão do também já desaparecido Raul Solnado, que o convidou para a inauguração do Teatro Villaret, com a peça “O Inspector Geral”, de Nicolau Gogol.

A sua afirmação no teatro de revista aconteceu no entanto no Teatro ABC, Mas foi no Teatro ABC onde foi autor, encenador e actor, ao lado de Ivone Silva, Manuela Maria, Irene Cruz, Henriqueta Maya, António Anjos, Iola e o consagrado João Maria Tudela, então na revista “Bikini”. Por ocasião da revolução dos cravos, o 25 Abril de 1974, Nicholson tinha em cena a peça “Tudo a Nu” no Teatro ABC, uma revista que, como ele próprio viria a recordar numa entrevista, "esgotava todas as sessões”.

A revista "Tudo a Nu", aliás, viria a ser "remodelada" fruto da revolução de Abril, isto porque tirando partido do final da censura, Francisco Nicholson repôs os cortes efectuados e passaram a chamar-lhe “Tudo a nu com parra nova”. Esta fase da sua carreira viria a dar lugar à formação da cooperativa teatral Teatro Adoque, local em que se iniciaram no teatro nomes tão conhecidos como José Raposo, Maria Vieira, Virgílio Castelo e Ana Bola, mas também Henrique Viana e António Feio, entre outros.

Francisco Nicholson acabaria no entanto por regressar ao Parque Mayer, para ali escrever com Henrique Santana, Mário Zambujal, Rogério Bracinha e Augusto Fraga a Revista “Não batam mais no Zézinho”, que ficou dois anos em cartaz.

Das obras de Francisco Nicholson, destaque ainda para a a canção "Oração", de que foi um dos autores, e com a qual António Calvário venceu o primeiro Grande Prémio TV da Canção, tendo ganho ainda, por duas vezes, o Festival da Canção da Figueira da Foz e duas grandes Marchas de Lisboa.

Em reacção à notícia da morte de Francisco Nicholson, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, gravou uma declaração mensagem em vídeo, divulgada através do sítio online da Presidência, na qual afirma as saudades que Nicholson deixa como artista, interventor político e amigo: "Francisco Nicholson partiu e deixou muitas saudades. As saudades do artista, no teatro, no cinema, na televisão, muito próximo das pessoas com o seu afeto e também com o seu talento".

Recordando o papel de Francisco Nicholson na luta pela democracia e liberdade, Marcelo Rebelo de Sousa destacou ainda a "saudade da intervenção política do lutador pela democracia, que ele não separava do seu papel como artista, e depois a saudade do amigo".

Em termos pessoais, tendo sido casado duas vezes, Francisco Nicholson deixa uma filha, Sofia Nicholson, também ela actriz.

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