Nas galerias romanas em pleno coração de Lisboa
Hoje é Segunda-Feira, 21 de Agosto de 2017

Nas galerias romanas em pleno coração de Lisboa

No coração da baixa pombalina, recuámos no tempo muito para trás da intervenção arquitectónica de Sebastião de Carvalho e Melo

quinta, 22 setembro 2016

IMG 4072Vão estar acessíveis ao público ao longo dos próximos três dias, de sexta-feira a domingo, as galerias romanas de Lisboa situadas em plena baixa pombalina, integradas no Museu de Lisboa , e que nestes três dias deverão receber quase quatro mil visitantes que se inscreveram online em apenas 20 minutos. A curiosidade do público incide sobre estas galerias, datáveis dos inícios do século I d.C. que são abertas ao público apenas duas vezes por ano por razões de preservação do monumento e segurança. Para já, de 23 a 25 do corrente mês, serão então permitidas as visitas do público no contexto da programação do Museu de Lisboa e da EGEAC, inserida nas Jornadas Europeias de Património.

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Antes mesmo da abertura ao público, o canal de Turismo do LusoNotícias pôde descer pela entrada em pleno asfalto da rua da Conceição, à beira da rua da Prata e bem no meio dos carris dos eléctricos, acedendo assim a uma estrutura romana, descoberta no subsolo da Baixa de Lisboa em 1771, na sequência do Terramoto de 1755 e posterior reconstrução da cidade, tem sido objeto, ao longo do tempo, de múltiplas interpretações quanto à sua função original. Antes do acesso permitido para este período de visitas desta feita iniciado com um primeiro dia destinado às visitas dos jornalistas, houve necessidade de avançar para um complexo processo que visa retirar a água que mantém aquelas galerias submersas com uma linha de água a pouco mais de um metro bem visível aquela linhas nas paredes das galerias.

A extracção da água, que chega a estas galerias proveniente dos lençois freáticos que vão "desaguar" no Tejo, resulta assim de uma acção que é realizada duas vezes por ano com o apoio dos serviços dos Sapadores Bombeiros de Lisboa. A extracção da água, anteriormente executada pelos bombeiros, é hoje assegurada por bombas eléctricas particularmente potentes aque são colocadas em funcionamento permenente nestes dias para permitir que o público possa conhecer as galerias, isto porque se assim não fosse, e perante uma hipotética paragem do funcionamento das bombas, aqueles espaços ficariam inundados e naturalmente inacessíveis em três a quatro horas. Uma particularidade tem a ver com a existência de uma falha que é alvo de uma monitorização permanente e que permitiu já concluir que essa falha abre ligeiramente durante o inverno e fecha com o tempo quente do verão, sendo estas aberturas e fechos de apenas microns de milímetros. Estas condicionantes conjunturais acabam por justificar que a abertura deste espaço ao público não vá além dos três dias de cada vez nas duas vezes permitidas ao longo do ano.

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Quanto a nós, e depois de "mergulharmos" nas entranhas da baixa pombalina com o acesso permitido por estas galerias romanas, sentimo-nos literalmente recuar no tempo para o meio de uma realidade de há muitas centenas de anos atrás. em algumas galerias, o acesso de qualquer indivíduo que tenha mais de 1m50 é de particular dificuldade, pela necessidade de andar completamente dobrado pela exiguidade do espaço. Os smartphones que transportámos para aquelas galerias rapidamente se revelaram objectos inúteis pela incapacidade das comunicações penetrarem em paredes com séculos de existência, outrora tapadas com cimento para uma maior protecção contra infiltrações e entretanto destapadas de novo para permitirem o seu estudo. Se pensarmos que nem sequer podemos ver tudo, isto porque as galerias visitáveis resumem-se a apenas um terço daquilo que se conhece do monumento, sendo que o que é conhecido não é a totalidade do mesmo, havendo ainda galerias por conhecer.

Os mais claustrofóbicos não acharão grande piada à permanência naquele espaço que nos foi apresentado por Joana Sousa Monteiro, directora do Museu de Lisboa, entidade que detém a gestão deste espaço, e ainda Lídia Fernandes, arqueóloga coordenadora do Museu de Lisboa Teatro Romano, as responsáveis que nos deram conta da realidade de um espaço que tanta curiosidade provoca aos milhares de visitantes que nos dois períodos permitidos por ano para as visitas — sempre no último fim-de-semana de Setembro e no mês de Abril, também durante três dias, por ocasião Dia Internacional dos Monumentos e Sítios Arqueológicos — esgotam invariavelmente a disponibilidade de recepção de público naquele espaço.

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Depois de um passado recente em que os dias destinados às visitas permitiam enormes filas de candidatos a visitantes que, por vezes desde as primeiras horas da madrugada, esperavam ao longo da Rua da Prata até à Praça da Figueira para conseguirem visitar aquele espaço, a chegada das novas tecnologias permitiram que o público pudesse ser poupado às filas nas ruas da Baixa, passando a inscrição para as visitas a ser feitas pela internet.

A maior facilidade para o público em aceder às inscrições para as visitas levou a que o número de interessados em visitar estas galerias romanas acabou por permitir que o número de interessados aumentasse de forma significativa, e este aumento acabou por estar na base de outros problemas, nomeadamente a incapacidade do servidor em dar resposta na última vez em que se abriu o portal do Museu de Lisboa à inscrição dos visitantes. O servidor não aguentou os 80 mil cibernautas que, em simultâneo, quiseram inscrever-se para as já referidas 3800 vagas, houve que resolver este problema, e só no dia seguinte as inscrições online foram realmente possíveis fechando as vagas em apenas 40 minutos.

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Sobre a utilidade prática destas galerias, teses quase unânimes avançam a possibilidade destas galerias romanas terem sido um criptopórtico, solução arquitetónica que criava, em zona de declive e pouca estabilidade geológica, uma plataforma horizontal de suporte à construção de edifícios de grande dimensão, normalmente públicos. A descoberta de uma inscrição consecratória a Esculápio, Deus da Medicina, em nome de dois sacerdotes do culto imperial e no do Município de Olisipo, gravada numa das faces de um bloco paralelepipédico de calcário e datada do séc. I a.C., atualmente no Museu Nacional de Arqueologia, poderá ser uma confirmação do carácter público deste edifício. No início do séc. XX, estas galerias ficaram conhecidas como as "Conservas de Água da Rua da Prata" por serem utilizadas pela população como cisterna.

Habitualmente, milhares de visitantes têm a oportunidade de realizar esta visita, em grupos de 25 a 30 pessoas. Nas visitas de 23 a 25 de Setembro, e face ao elevado número de interessados, o horário foi alargado — entre as 9 e as 19 horas —, tendo esgotado todas as 3800 vagas disponíveis para visitas que são possíveis por via do trabalho realizado por algumas entidades, nomeadamente a Câmara Municipal de Lisboa, a EGEAC e o Museu de Lisboa, mas também do Regimento de Sapadores Bombeiros, da Polícia Municipal, do Centro de Arqueologia de Lisboa, da Direção Municipal de Mobilidade e Transportes, Serviços Elétricos e Mecânicos, e ainda da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.

reportagem: Jorge Reis

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