Teresa Salgueiro em viagem rumo ao Horizonte

Teresa Salgueiro em viagem rumo ao Horizonte

Lisboeta, a voz que nasceu para o público com os Madredeus apresentou-se perante casa cheia justificada por trinta anos de carreira

JC 52696Foi apresentado no último domingo em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB), o novo álbum de originais de Teresa Salgueiros, "Horizonte", ela que celebra o trigésimo ano de carreira com um percurso musical de excelência. Com apenas dezassete anos, Teresa tornou-se membro integrante do grupo Madredeus, um dos maiores ícones da música nacional, do qual se dissociou nove álbuns depois, em 2007. Desde então, o seu percurso veio a ser desenvolvido num projeto a solo, sob nome próprio, o qual tem sido bem recebido pelo público que permanece devoto à singularidade de uma potência vocal que se há-de perpetuar pela história da cultura musical portuguesa.

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O Horizonte agora apresentado na cidade que a viu nascer surge no âmbito deste último projeto, consistindo em temas originais desenvolvidos com o apoio da banda que acompanha Teresa desde 2012. A apresentação aconteceu na noite do último domingo do CCB, dia em que, pouco depois das 21 horas, um primeiro baixar de luzes silenciou um auditório bem composto por ouvintes expectantes. Ainda assim, só minutos depois é que subiu o pano, permitindo um ambiente escuro, com jogos de sombras e tons frios para a recepção de Teresa Salgueiro ao som de “Horizonte”.

Depois do tema que dá nome a este trabalho, seguiu-se “A Esperança” para só depois a artista se dirigir pela primeira vez ao público. Para além da habitual saudação inicial, este momento foi aproveitado para introduzir o termo horizonte como o “limite do mundo tangível”, como o fim em direcção ao qual caminhamos, motivados por memórias e sonhos. Em seguida, continuou-se a explorar os novos temas, ouvindo-se “A Cidade”, “Desencontro”, “Instante” e o “Vento”. E se por vezes parecíamos ser transportados para solo francês devido à sonoridade inconfundível do acordeão, “Êxodo” levou-nos até à Arábia. Introduzida pelo som de tiros e bombas, esta música foi inspirada numa travessia do deserto, surgindo assim como uma referência à actual crise dos refugiados, no sentido de homenagear os povos excluídos que vagueiam sem destino, sem casa e sem apoios, que Teresa acredita serem movidos pela memória.

A memória surge aqui, aliás, como elo de ligação à inversão de sentido que se efectua, uma vez que o espetáculo se desenvolve agora com Teresa Salgueiro a debruçar-se sobre o passado em tom de homenagem, através das suas recordações. Com uma ovação quase imediata ouviu-se “Barco Negro”, da autoria de Amália Rodrigues, louvor que a artista afirmou ser obrigatório.

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Ainda no âmbito dos artistas incontornáveis da música portuguesa surgiram os nomes de Carlos Paredes e de Zeca Afonso, recordados através dos temas “Verdes Anos” e “Canção de Embalar”, respectivamente. Em seguida, duas odes à guitarra, através do fado “Recordação” de Maria Teresa de Noronha e da “Guitarra” dos Madredeus, ouvindo-se ainda do antigo grupo de Teresa Salgueiroo tema “Haja o que houver”, com o convite para que o público pudesse acompanhar a artista em palco. O convite foi recebido, uns aceitaram-o enquanto outros nem por isso, mas foi nesta fase que o público começou a desabrochar.

A referência aos Madredeus em tom nostálgico permitiu recordar as plateias que conquistaram juntos, algumas das quais Teresa afirmou manter, realçando a mexicana. Avançou-se, então, para a terceira etapa do concerto, desta vez em solo latino-americano. Assim, ouviram-se a “Canción Mixteca”, interpretada de forma bilingue entre o português e o espanhol, e uma composição de Chabuca Granda, artista natural do Peru.

De regresso a terras lusitanas para a continuação da apresentação de O Horizonte, surgem desta vez “Maresia”, “Céu”, “A Luz” e “O Mistério”. Antecipando o adeus, Teresa Salgueiro, para além dos agradecimentos habituais, aproveitou o momento para apresentar os “seis” elementos da sua banda: no contrabaixo Óscar Torres; na percussão, bateria e guitarra Rui Lobato; na guitarra e na braguinha Graciano Caldeira; no acordeão Marlon Valente; e, invulgarmente incluídos na lista de apresentações, Francisco Lester e Jorge Barata responsáveis pela iluminação e pelo som, respectivamente. Em jeito do que parecia ser a despedida, ouviu-se “Liberdade”.

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Teresa Salgueiro saiu mesmo de palco mas rapidamente voltaria para o "encore" durante o qual interpretou mais três temas. O primeiro foi “Lisboa”, em tom de homenagem para com a terra que a viu nascer, seguido de “O Pastor”, música da autoria dos Madredeus com o qual a artista arrecadou a maior ovação da noite, tendo sindo acompanhada ao som de palmas, não fosse ela um hino ao esplendor do que melhor se fez e faz em território nacional. Por fim, o “Entardecer” encerrou a viagem a que estivemos sujeitos pela capacidade de transporte das músicas de Teresa Salgueiro.

Foram cerca de duas horas que serviram de reflexo à iconicidade de uma carreira cheia de mérito e que só confirmaram a aptidão natural desta artista para espelhar emoção e devoção em todo o seu trabalho, passem os anos que passarem. Teresa Salgueiro fez-nos sonhar num concerto que vai, certamente, ficar na memória dos presentes. No fundo, acordar é que não queríamos.

texto: Beatriz de Abreu Correia
fotos: Jorge T. Carmona

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