O xadrez de taxistas, uber, cabify e... geringonça
Hoje é Segunda-Feira, 21 de Agosto de 2017

O xadrez de taxistas, uber, cabify e... geringonça

Nos bastidores de um dia de bloqueio a um aeroporto de uma cidade europeia como é Lisboa, as jogadas nem terão saído tão mal

taxi-uber-01E se de repente a transformação de uma marcha lenta de taxistas até ao Parlamento, para uma concentração e bloqueio na Rotunda do Relógio tiver sido do interesse do BE e do PCP!? ...

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A chegada da manifestação dos táxis a São Bento colocava em causa todos os partidos com assento parlamentar e todos teriam que se manifestar, nomeadamente os partidos que suportam o Governo, passando a ser um problema de todos. Ao invés, a paragem da manifestação e a concentração no meio da cidade, com reuniões de urgência no Ministério do Ambiente transformou o problema numa questão a resolver apenas pelo Governo do PS enquanto que o BE e o PCP puderam, pelo menos para já, lavar daí as suas mãos. Não será caso para se dizer que tudo estava previsto assim... mas dizem por aí que não há coincidências.

A determinada altura, porém, tornou-se necessário resolver o bloqueio da Rotunda do Relógio em redor do qual chegou a pairar a possibilidade de uma intervenção musculada por parte das forças policiais. O secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, presente no programa Prós e Contras da RTP, quando questionado sobre a forma como deveria ser resolvido o impasse em que entretanto estava transformado o trânsito em Lisboa na zona do aeroporto, dizia que essa era uma questão que não devia ser colocada ao Governo (!!!), ficando por se saber quem teria que responder perante uma situação que estava já muito para além de uma manifestação legal e ordenada. Quereria aquele secretário de Estado dizer que teria que ser o Fernando Medina com a Polícia Municipal a resolver o problema, ou será que o Ministério da Administração Interna que tutela a PSP e que teria que assumir atitudes tinha deixado, ainda que por umas horas, de pertencer ao Governo suportado pela geringonça? 

Certo é que o secretário de Estado disse mesmo não ter nada a dizer quanto ao bloqueio da Rotunda do Relógio, os elementos da Antral e da FPT disseram que iriam lá ficar "o tempo que fosse preciso", uma posição que viriam a alterar posteriormente quando perceberam que o resultado poderia ser a tal "porrada" de que falaram na preparação desta manifestação, e desde logo ficaram perguntas sem resposta: 
— Quem é que responde perante a PÉSSIMA imagem que a cidade de Lisboa deu esta segunda-feira perante todos os turistas que chegaram ou partiram no Aeroporto de Lisboa!?
— É normal deixar a cidade e um aeroporto reféns de uma classe representada por alguns milhares de elementos!?
— Pode um aeroporto de uma capital europeia, porta de entrada para União Europeia, ficar sitiado sem que ninguém assuma a resolução do problema!?

Ficava também por se saber, depois do secretário de Estado ter dito que nada tinha a ver com os resultados práticos da manifestação, quem iria assumir as acções que as forças policiais tivessem que efectuar durant a madrugada!? De quem teria sido a responsabilidade!? Quem assumiria as ordens a dar!? Que graduado policial avançaria com a responsabilidade de uma eventual carga mais violenta depois de ter escutado um elemento do Governo dizer que não tinha nada a dizer sobre isso!?

Perante todo este funcionamento dos taxistas, por um lado, perdidos sem saberem muito bem o que fazer face a dirigentes que depois de quase 20 horas de bloqueios os aconselhavam a regressar a casa, e da geringonça, representada por um secretário de Estado a responder que nem Pilatos, com os partidos de suporte ao Governo comodamente ausentes de todo este problema (apenas um deputado do PCP deu a cara junto dos taxistas na Rotunda do Relógio mas ainda assim com uma atitude passiva), ficou claro que muitos motores dos velhinhos e icónicos táxis Mercedes 180 ainda estarão em condições de funcionarem melhor do que os que deveria decidir todas estas questões.

Pelo meio, os taxistas insistiam agora que era altura de manter o bloqueio, e havia mesmo quem justificasse a convicção de que as forças policiais nada fariam com a presença ali dos jornalistas, os mesmos jornalistas a quem ao longo do dia não quiseram falar alegando que a Imprensa só falava mal da classe dos taxistas. Os jornalistas, pelo menos aos olhos de alguns dos manifestantes, transformavam-se assim e, "escudo protector" contra cargas policiais.

Certo é que, depois de muita insistência, e de dizerem de forma clara o que começaram apenas por sugerir, apontando como "o melhor a fazer" o fim do bloqueio, os taxistas lá resolveram voltar a casa mesmo sabendo que nada mudou em termos concretos depois daquele longo dia de luta. Com o volante entre as mãos, o caminho foi o abandono da luta, ficando a promessa de um regresso, agora em Belém, à porta do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Afinal, depois de se ter dado a volta a uma "manifestação" que deveria ir em marcha lenta até ao Parlamento, travando-se tudo em pleno aeroporto e colocando-se o papel de "mau da fita" nas mãos do Governo, com espaço para o BE e o PCP poderem lavar as suas mãos de toda esta crise, houve que voltar a baralhar e a dar de novo. Perante o bloqueio, e antes que tudo resultasse na "porrada" que chegou a parecer inevitável, com as consequÊncias negativas para o próprio Governo, eis que os taxistas chutam o problema para a frente e aponta-se a Belém, onde Marcelo será colocado à prova como se o problema seja dele, com o Governo a esfregar as mãos de contente porque terá que ser o Presidente a dar um rumo a tudo isto.

No tabuleiro de xadrez, com os taxistas de um lado e os elementos das plataformas Uber e Cabify do outro, Parlamento e Governo escaparam para já a eventuais lances de Xeque ao rei, avançando os peões para uma tentativa de xeque... ao Presidente.

Afinal, falhada a pressão dos táxis sobre o Governo aponta-se agora a Marcelo em Belém! E se mesmo assim não for dada uma resolução a este problema, avança-se agora para Guterres nas Nações Unidas! Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos!

Jorge Reis

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