Deolinda - Que cómico fado o deles
Hoje é Segunda-Feira, 27 de Março de 2017

Deolinda - Que cómico fado o deles

Os Deolinda regressaram ao Coliseu dos Recreios na celebração de uma década (e mais uns pózinhos) de actividade musical

JC 58025O Coliseu dos Recreios foi o recinto escolhido para receber a celebração dos 10 anos (e mais qualquer coisa) de actividade dos Deolinda, hoje um dos nomes mais sonantes da música portuguesa , que ali passaram na noite de 28 de Janeiro. O frio que se fazia sentir à saída do recinto contrastava com o ambiente caloroso que marcou todo o concerto, à medida que Ana Bacalhau, sempre muito espirituosa e divertida, juntamente com o seu marido, José Pedro Leitão, e seus primos (e irmãos entre si), Pedro Silva Martins e José Luís Martins, levaram o público a viajar por uma década de canções.

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A família que se encontrava no palco era uma das muitas presentes. Note-se que alguns dos membros da plateia faziam-se também acompanhar por familiares: pais, avós, filhos… sendo de realçar a heterogeneidade etária do público em redor de uma banda que, em termos relativos, teremos que dizer que ainda é recente.

Por volta das 21h30, as luzes apagam-se. Sobem ao palco os Deolinda, de imediato muito aplaudidos, e à medida que os holofotes incidem sobre os mesmos… Silêncio. Vai-se cantar o fado? Não sei bem, cantou-se certamente um povo, mas não como se canta usualmente o fado. É que estas letras não são choro, são, pelo contrário, gargalhadas. As personagens que as protagonizam através da voz de Ana não dizem “Olhem que destino o meu” mas antes nos falam em tom de brincadeira, como quem diz: “Olha que sorte a minha! Estás-te a rir? Não te rias de mim! Ri-te comigo!”

A noite abriu com o tema “Não sei Falar de Amor”, faixa integrante do álbum de estreia “Canção ao lado” (2008). Seguiram-se “Lisboa Não é a Cidade Perfeita”, “O Fado Não é Mau” e “Mal por Mal”, também estes temas integrantes do mesmo álbum. Chegou depois a hora de passar ao segundo trabalho da banda, “Dois Selos e Um Carimbo” (2010), que começou com o tema “Entre Alvalade e as Portas de Benfica.”

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Provocando o público, depois de o anunciar, Ana dizia para verem pela cor do seu vestido (vermelho) quem ganhou. Muitos aplaudiram, alguns vaiaram, e a maioria riu quando alguém da plateia gritou — “O Moreirense!” —, por uma altura em que o humorismo expandia-se das letras para o diálogo com o público a cada intervenção da vocalista.

A banda continuou a viagem pela sua discografia sob uma lógica cronológica. “Semáforo da João XXI” foi a primeira de quatro  músicas do disco “Mundo pequenino” (2013). Posteriormente, “Manta para Dois” abriu uma sequência de temas do álbum mais recente, “Outras histórias” (2016). Até aqui, o público ia deixando para quem sabe, cantarolando as canções uma vez ou outra, mas com contenção. Ou talvez estivessem apenas a conter as gargantas, esperando pelas mais populares que vieram no final.

Aos primeiros acordes de “Movimento Perpétuo Associativo”, o Coliseu, com lotação esgotada ou perto disso, cantava em uníssono com Ana Bacalhau. Depois de muitos aplausos e do regresso da banda, que entretanto saíra de cena ao som dos mesmos, “Fon Fon Fon” e “Um Contra o Outro” foram vivenciados com igual ou maior intensidade.

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Houve ainda tempo para escutar “Fado Toninho” e “Dançar de Olhos Fechados”, após as quais o público, de pé na sua maioria, se rendia. Deolinda agradeceram com uma vénia conjunta e de seguida abandonaram o palco, atrás do qual certamente ainda escutavam a ovação, que se prolongou durante alguns minutos.

Um pedaço de dez anos, uma selecção equilibrada de temas ante uma década de possibilidades. Fica a ideia de que, mesmo com um alinhamento diferente, a diversão teria sido igual. E quanto a manifestação de desejos... que a lufada de ar fresco que o grupo proporcionou à música popular portuguesa na última década, se mantenha como uma brisa constante, e que daqui a dez anos possamos estar novamente no Coliseu a celebrar 20 anos de música dos Deolinda, por entre cantorias e gargalhadas.

texto: João Batista
fotos: Jorge T. Carmona

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