Carlos Leitão fez do CCB a sua Sala de Estar

Carlos Leitão fez do CCB a sua Sala de Estar

Durante quase duas horas este músico de Lisboa que adoptou o Alentejo como terra natal cantou o fado, destacou o cante e permitiu emoções

IMG 5946Imaginemo-nos em casa de um bom amigo, que nos recebe com a sua música, num ambiente por vezes intimista, ao jeito de um convívio na mais acolhedora sala de estar . Pelo meio vamos vendo algumas fotos do anfitrião, imagens que brilham numa luz ténue, porventura de uma qualquer lareira do cenário para o qual nos transporta a nossa imaginação, ou de um candeeiro de pé que é aceso quando precisamos de maior detalhe e cuidado na observação. Montado o cenário será agora fácil transpor o mesmo para o pequeno auditório do Centro Cultural de Belém, um espaço que o fadista Carlos Leitão encheu de amigos para um espectáculo que se revelou pleno de qualidade e recheado de emoções.

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Com o propósito de apresentar o seu mais recente álbum de originais - “Sala de Estar” -, Carlos Leitão apresentou um espectáculo ao jeito de uma boa tertúlia alentejana, com fado de qualidade, algum cante à mistura, aqui e ali alguma conversa de amigos para disfarçar o nervosismo e a ansiedade de quem tanto sonhou com este dia, tudo embrulhado em emoções que se foram sentindo e partilhando, numa noite que terminou com todo o público de pé, a cantar e a oscilar ao ritmo de uma moda típica alentejana cantada por todos os que naquelas duas horas passaram pelo palco, antes de abalarem... por esses campos fora.

Mas se a saída ficou marcada pelo cante alentejano, já a entrada havia apontado o rumo às planícies alentejanas, com Carlos Leitão a interpretar ”à capella” o tema “Oh meu Alentejo”, com o cenário a mostrar uma primeira imagem da planície que ele aprendeu a amar e que transporta hoje nas músicas que escreve e compõe. Viajando entre as suas composições originais e o fado tradicional, este lisboeta “de sangue e alma alentejanos” visitou o seu primeiro disco “Do Quarto” (editado em 2013), mas foi naturalmente no novo “Sala de Estar” que se concentrou o alinhamento do concerto, interpretando as suas próprias letras musicadas por nomes como Mário Pacheco ou Jorge Fernando, entre muitos outros.

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Ao longo de um alinhamento preparado de forma cuidada, Carlos Leitão foi mantendo um agradável diálogo com o público, uma conversa de amigos que por diversos momentos se terão sentido em plena sala de estar da casa de Arraiolos do fadista, tal a familiaridade e por vezes até o ambiente intimista que se conseguiu no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Por vezes acompanhado por Henrique Leitão na guitarra portuguesa, Luis Pontes na viola de fado e Carlos Menezes no contrabaixo, e em outros temas a solo, acompanhando-se a si mesmo à viola como tanto gosta de fazer, Carlos Leitão passou por temas como “Talvez porque Lisboa me esqueceu”, “Fado de Arraiolos” ou o “O Telefonema”.

Fazendo acompanhar os seus temas por algumas imagens significativas num “slideshow” cuidadosamente preparado por Carolina Monteverde, como a sua própria fotografia no momento em que cantou pela primeira vez com apenas 10 anos, uma outra em que homenageou aqueles que são hoje os seus pilares familiares, nomeadamente a sua noiva e os seus filhos, e ainda a fotografia que lhe permitiu recordar o seu pai que por certo, onde estiver, estará particularmente orgulhoso do fadista mas principalmento do Homem que o seu filho é hoje, o fado foi despertando sentimentos e emoções, com temas como “Até ao fim”, ainda do seu primeiro álbum, ou “À Distância”, um fado em que viria a assumir um pequeno engano na letra que nem por isso lhe retirou o brilho na interpretação nem os aplausos pela mesma.

Com o público rendido ao seu fado mas também à sua simpatia, numa plateia em que marcaram presença alguns nomes conhecidos como Marta Pereira da Costa ou Rui Veloso, lado a lado com amigos do fadista e muitos anónimos, todos juntos trautearam o refrão do “Fado Fadista”, avançando depois Carlos Leitão para “O Dia do Casamento”, fado que dedicou à sua noiva, e ainda para “Sexta-feira”, o single desta “Sala de Estar”.

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Sempre com um som de qualidade, para o que contribuiu o trabalho de Miguel Ponte, e um jogo de luzes e iluminação em palco inteligente e bem pensado, da responsabilidade de Vítor Azevedo, a permitir por vezes os tons vermelhos próprios da lareira imaginária da sala de estar do anfitrião, e em outros momentos a luz intimista de um candeeiro para os temas em que Carlos Leitão cantou sozinho em palco, o espectáculo avançava para um dos momentos altos da noite, quando o fadista chamou ao palco Pedro Calado, Bernardo Espinho, Hugo Baletas e David Pereira para interpretar uma moda alentejana que ele próprio escreveu: “A noite fica-me bem”. E ficou mesmo!

Ultrapassar aquele momento em termos de qualidade não era fácil mas Carlos Leitão manteve a fasquia em alta com outros temas como “Fado Cravo”, “Fado das Horas” e “Fado Noquinhas”, temas que permitiram um primeiro adeus à noite de fado que mais não foi do que um até já. O público pediu mais e daí ao “encore” foram apenas alguns instantes, com Carlos Leitão a catar “Premonição” e “Loucura”, numa noite concluída com a chamada ao palco de todos aqueles que por ali passaram ao longo daquelas duas horas, para ali interpretarem a já referida moda típica alentejana “Vamos lá saindo por esses campos fora”.

Se dúvidas existissem quanto à intensidade de emoções com que o público acompanhou a música desta “Sala de estar”, a forma como todos se juntaram ao fadista na interpretação desta moda, adoptando o ondular próprio alentejano ao ritmo do tema, deixou claro no final que Carlos Leitão terá rapidamente que aumentar a sua moradia pois serão cada vez mais aqueles que irão querer partilhar serões na planície ao som dos seus fados. E nós... vamos lá estar!

Jorge Reis (texto e fotos)

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