Na semana do Halloween sugerimos um livro de contos negros e macabros. Ao longo de várias pequenas histórias, Mafalda Santos conta, através de tramas fantásticas e sobrenaturais, estórias que mergulham nos mais profundos e recônditos esconderijos da psique humana.

O medo é algo comum a todos e que cria, simultaneamente, algum fascínio e curiosidade em cada pessoa. Não é por acaso que as histórias de terror e a curiosidade pelo desconhecido têm tantos fãs e adeptos. Saber o que está para lá daquilo que conhecemos, desafiando-nos, é algo que muitos procuram e que atormenta as mentes mais sensíveis, ou não. Seja na tentiva de encontrar uma explicação, seja apenas para quebrar tabus.

“O medo é algo transversal e universal. Todos o sentimos, todos aprendemos a conviver com ele, bem amestrado na caixinha de coisas que existem dentro da nossa cabeça, mas que não abrimos com receio do efeito que terá em nós. Acredito que o exercício de desafiar esse medo abre portas à criatividade, à poesia e à compreensão profunda da psique humana”, comenta Mafalda Santos. A autora sempre se sentiu fascinada pelo “terror clássico, psicológico, e por isso intemporal, de tudo o que é invisível e assim nos atormenta e assusta, mais do que qualquer outra coisa.”

A partir de quadros selecionados por David Benasulin, o ilustrador de “Conta-me, Escuridão”, Mafalda Santos construiu  narrativas únicas. A escolha recaiu em obras de pintores de renome internacional como é o caso de Guillermo Lorca Garcia (Chile),  Zdzisław Beksiński (Polónia) e John Singer Sargent (Itália), entre outros. O processo criativo foi simples: “Por cada quadro escolhido, um conto era criado. Como se se tratasse de uma fotografia, tirada num qualquer momento da acção destas histórias. Depois de escrito o conto, era a vez do ilustrador captar a essência de cada narrativa, num único desenho.”

Para Mafalda Santos o medo está presente em tudo o que fazemos e em todos nós, o que difere é a forma como o expressamos e como lidamos com ele. Para a escritora, durante a vida de cada um o medo manifesta-se de diferentes formas. Foi com base nesta forma de encarar o medo que resolveu convidar “quatro bons amigos que lessem e que escrevessem algo acerca do livro”. “O Fernando Ribeiro, escritor e vocalista dos Moonspell, Nuno Markl, comediante, Sinde Filipe, actor, e Dino d´Santiago, cantor. Todos se apaixonaram pelo livro, apesar de terem, os quatro, estilos e percursos de vida e profissionais completamente diferentes...”

"O mundo está cheio de luz serena que nos trai os sentidos e de sombras que recuam, arrastando tudo para dentro de montanhas.

Tinham passado oito dias, quando António recuperou os sentidos. Abriu os olhos, mas à sua volta havia apenas escuridão. Sentiu o perfume do chá de flores silvestres e soube que estava na casa do eremita. Não se lembrava bem do que tinha acontecido. A memória flutuava num oceano de destroços e até o rosto de Ana lhe aparecia desfocado e fugidio. Sentia na boca um travo intenso e adocicado, que podia bem ser o sabor do delírio."

“Conta-me, Escuridão”
...excerto do conto “O Mal por Detrás da Montanha”
pág. 66-67
Mafalda Santos
Suma de Letras/ Penguin Ramdon House
2021

 

Todas as histórias são únicas e completamente diferentes das restantes, dando-lhes uma personalidade própria. “Cada uma foi escrita como se fosse uma peça de filigrana fina ou um poema. Com a maior atenção dada a cada palavra. Cada uma tem um papel essencial na tarefa de levar o leitor pela mão, numa viagem  pelos mais recônditos e sombrios recantos do medo” sublinha a autora.

Mafalda Santos entrou para a Escola Profissional de Teatro de Cascais aos 15 anos e prosseguiu os seus estudos na Escola Superior de Teatro de Cinema onde se licenciou em Teatro/Encenação. A sua estreia como atriz profissional foi no Teatro Nacional D. Maria II, em 2000, e a sua carreira prosseguiu, durante os 17 anos seguintes, na televisão e no teatro. Foi então que começou a escrever para teatro, mas apenas para projetos nos quais estava envolvida como atriz ou encenadora. Passou pelo Canal Q e pelo 5 Para a Meia Noite, onde foi não só atriz mas também guionista residente.

Além de escritora, atualmente Mafalda Santos escreve com regularidade para várias produtoras, companhias de teatro e agências de eventos e publicidade. A par destas atividades, Mafalda Santos dá aulas de teatro há 10 anos no TeatroEsfera encontrando-se desde já na calha um novo trabalho literário, um romance em que está a trabalhar. Na obra em curso a autora afasta-se do terror, mas mantém uma proximidade com o realismo mágico: “Gosto, quando a ficção e a distopia servem para contar histórias que nos tiram o tapete e o fôlego.”

A escritora sente-se inspirada pela escrita e universos criados por José Saramago, um dos maiores escritores portugueses e galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998.

Leonor Noronha
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